Carlos Alberto Di Franco - O Estado de S.Paulo
Domingo, 1.º de maio. Uma multidão impressionante
ultrapassa os limites da Praça de São Pedro, no Vaticano, toma conta da
Via della Conciliazione e se espraia por ruas, praças e vielas de Roma.
Jovens, uma multidão de jovens, italianos, poloneses e dos quatro cantos
do mundo, ocuparam a cidade para festejar a beatificação de João Paulo
II.
O fenômeno de massas, talvez o maior da história de Roma, só teve um
precedente: a morte de Karol Wojtyla. A madrugada avançava naquela que
seria a última noite de João Paulo II neste mundo. E foi com os jovens o
último diálogo, embora indireto, do papa agonizante. Ao ser informado
de que havia uma multidão de jovens entre os milhares de pessoas que
rezavam por ele diante de sua janela, na Praça de São Pedro, o papa,
conforme relato feito por seu porta-voz, o jornalista Joaquín
Navarro-Valls, teria murmurado: "Vi ho cercato/ siete venuti da me/ e vi
ringrazio" (eu os procurei, agora vocês vieram a mim e por isso lhes
agradeço).
A mensagem do papa, divulgada pelas rádios, TVs e pelos celulares,
percorreu Roma como um rastilho de afeto. E uma interminável fila de
jovens tomou conta do Vaticano. Seu funeral foi acompanhado por todas as
lideranças do mundo. As diferenças ideológicas depuseram suas armas em
homenagem ao mensageiro da paz. Mas o que mais impressionou, em abril de
2005 e ontem, foi a onda jovem que abraça o papa com seu carinho.
Evoco, caro leitor, as imagens do último megaevento que reuniu João
Paulo II e seus jovens seguidores. Diante de milhares de peregrinos,
reunidos na celebração da 17.ª Jornada Mundial da Juventude, em Toronto,
o papa João Paulo II, então com 82 anos, apresentou-se ao público como
"um velho papa, com muitos anos de vida, mas ainda com coração jovem".
No palco preparado para a cerimônia, caminhou apoiando-se numa bengala,
cantou com os jovens e fez piadas sobre sua saúde.
A multidão recebeu-o com um entusiasmo impressionante. Usando tênis e
mochilas, os "papaboys", como são apelidados os jovens que participam
das jornadas católicas, receberam o pontífice cantando, dançando e
entoando bordões como "João Paulo II, nós amamos você". O papa,
encurvado e doente, continuou sendo um indiscutível fenômeno de massas. O
desempenho de João Paulo II, sobretudo no meio jovem, foi, até o fim,
uma charada que desafiou o pretenso feeling de certos estudiosos do
comportamento. Afinal, o estereótipo do papa conservador, obstinadamente
apegado aos valores que estariam na contramão da modernidade, foi
contestado pela força dos fatos e pela eloquência dos números.
Durante quase 27 anos de pontificado, as ruas, praças e esplanadas
nos quatro cantos do mundo foram tomadas por barracas, mochilas e
canções. A frustração de certos vaticanólogos só foi superada pelo ranço
amargo de alguns ideólogos fracassados. De fato, as concentrações
religiosas, imensas e multicoloridas, contrastavam fortemente com as
previsões pessimistas dos profetas da morte de Deus.
Os desembarques do papa foram, frequentemente, precedidos de
discutíveis pesquisas indicando que parcelas significativas da população
consideravam João Paulo II conservador e retrógrado. Chegou-se a falar,
num burocrático exercício de futurologia, de prováveis fracassos de
algumas de suas viagens e dos riscos de uma explosão de protestos contra
a rigidez doutrinal da Igreja Católica. As contestações, no entanto,
quando ocorreram, ficaram limitadas a meia dúzia de cartazes. E nada
mais.
A 17.ª Jornada Mundial da Juventude foi um bom exemplo do descompasso
entre as previsões dos ressentidos e o arejamento do mundo real. As
multidões que acompanharam o pontífice superaram todas as estimativas,
levando um comentarista internacional a perguntar, em artigo perplexo e
irritado, que mistério tinha João Paulo II para despertar "inabituais
cenas de fervor e mobilização coletiva, que parecem anacrônicas nestes
tempos, em que a Igreja é acusada de ser conservadora, retrógrada e, por
isso, distanciada da juventude". Como explicar o fascínio exercido pelo
papa? Como digerir a força de um fato?
Vem-me à lembrança, enquanto escrevo este artigo, a cobertura que fiz
para o jornal O Estado de S. Paulo, em outubro 2003, do 25.º
aniversário do pontificado de João Paulo II. Lembro-me, entre outros, de
um depoimento sugestivo. Bruno Mastroianni era um jovem filósofo
romano. Sobrinho de Marcello Mastroianni, o falecido ator de La Dolce
Vita, de Fellini, nasceu depois da eleição de João Paulo II. Encontrei-o
enturmado na Praça de São Pedro. "Nestes meus 24 anos", dizia-me então,
"João Paulo II sempre esteve presente. Lembro-me, quando era criança,
daquele homem vestido de branco, com aspecto de estrangeiro, mas, ao
mesmo tempo, tão familiar. Mais tarde, durante os anos da adolescência,
fiquei rebelde. O papa, no entanto, estava sempre lá, um pouco mais
velho, mas sempre forte. Dizia-nos, então, que o amor de Deus era a
única resposta, o único caminho para um futuro melhor."
"Agora, formado e iniciando minha vida profissional, aquele homem
vestido de branco, longe de parecer um velhinho frágil e doente,
continua lá. É uma rocha firme e segura. Acredito que para todos os
jovens, como eu, não exista melhor mestre do amor do que um papa tão
enamorado de seu serviço ao mundo", concluía Mastroianni.
A incrível sintonia entre João Paulo II e a juventude oculta inúmeros
recados. Num mundo dominado pela cultura do corpo e pela exaltação da
juventude e da sensualidade, o velho papa quebrou todos os moldes. Ele
foi, de fato, um sucesso mercadológico. Seu marketing, no entanto, teve
raízes profundas: fé robusta, coragem moral e coerência doutrinal e, sem
dúvida, a misteriosa magia da santidade.
DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO E-MAIL: DIFRANCO@IICS.ORG.BR