quarta-feira, 28 de março de 2012

Silêncios denunciam imprensa no caso Demóstenes

Marcelo Semer
De São Paulo


O senador Demóstenes Torres, do DEM-GO (foto: José Cruz/ Agência Brasil)
Demóstenes Torres é promotor de justiça. Foi Procurador Geral da Justiça em Goiás e secretário de segurança do mesmo Estado.
No Senado, é reputado como um homem da lei, que a conhece como poucos. Além de um impiedoso líder da oposição, é vanguarda da moralidade e está constantemente no ataque às corrupções alheias. A mídia sempre lhe deu muito destaque por causa disso.
De repente, o encanto se desfez.
O senador da lei e da ordem foi flagrado em escuta telefônica, com mais de trezentas ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, de quem teria recebido uma cozinha importada de presente.
A Polícia Federal ainda apura a participação do senador em negócios com o homem dos caça-níqueis e aponta que Cachoeira teria habilitado vários celulares Nextel fora do país para fugir dos grampos. Um deles parou nas mãos de Demóstenes.
Há quase um mês, essas revelações têm vindo à tona, sendo a última notícia, um pedido do senador para que o empresário pagasse seu táxi-aéreo.
Mesmo assim, com o potencial de escândalo que a ligação podia ensejar, vários órgãos de imprensa evitaram por semanas o assunto, abrandando o tom, sempre que podiam.
Por coincidência, são os mesmos que se acostumaram a dar notícias bombásticas sobre irregularidades no governo ou em partidos da base, como se uma corrupção pudesse ser mais relevante do que outra.
Encontrar o nome de Demóstenes Torres em certos jornais ou revistas foi tarefa árdua até para um experiente praticante de caça-palavras, mesmo quando o assunto já era faz tempo dominante nas redes sociais. Manchetes, nem pensar.
Avançar o sinal e condenar quando ainda existem apenas indícios é o cúmulo da imprudência. Provocar o vazamento parcial de conversas telefônicas submetidas a sigilo beira a ilicitude. Caça às bruxas por relações pessoais pode provocar profundas injustiças.
Tudo isso se explica, mas não justifica o porquê a mesma cautela e igual procedimento não são tomados com a maioria dos "investigados" - para muitos veículos da grande mídia, a regra tem sido atirar primeiro, perguntar depois.
Pior do que o sensacionalismo, no entanto, é o sensacionalismo seletivo, que explora apenas os vícios de quem lhe incomoda. Ele é tão corrupto quanto os corruptos que por meio dele se denunciam.
Todos nós assistimos a corrida da grande imprensa para derrubar ministros no primeiro ano do governo Dilma, manchete após manchete. Alguns com ótimas razões, outros com acusações mais pífias do que as produzidas contra o senador.
Não parece razoável que um órgão de imprensa possa escolher, por questões ideológicas, empresariais ou mesmo partidárias, que escândalo exibir ou qual ocultar em suas páginas. Isso seria apenas publicidade, jamais jornalismo.
Durante muito tempo, os jornais vêm se utilizando da excludente do "interesse público" para avançar sinais na invasão da privacidade ou no ataque a reputações alheias.
A jurisprudência dos tribunais, em regra, tem lhes dado razão: para o jogo democrático, a verdade descortinada ao eleitor é mais importante do que a suscetibilidade de quem se mete na política.
Mas onde fica o "interesse público", quando um órgão de imprensa mascara ou deliberadamente esconde de seus leitores uma denúncia de que tem conhecimento?
O direito do leitor, aquele mesmo que fundamenta as imunidades tributárias, o sigilo da fonte e até certos excessos de linguagem, estaria aí violentamente amputado.
Porque, no fundo, se trata mais de censura do que de liberdade de expressão.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável peloBlog Sem Juízo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Protestos contra a tortura mobilizam centenas de manifestantes em todo o país

 Por Redação, com agências
Estudantes fazem resgates históricos do período da ditadura para mostrar a importância da comissão da verdade

Organizado pelo Levante Popular da Juventude, o apoio à Comissão da Verdade se transformou em um ato que mobiliza centenas de manifestantes, nas últimas 24 horas, nas principais capitais do país. A onda de protestos tem  o intuito de expor, publicamente, participantes diretos da violência repressiva, com atos próximos aos locais onde vivem os acusados durante a ditadura militar.
Estudantes fazem resgates históricos do período da ditadura para mostrar a importância da comissão da verdade.
A Comissão da Verdade, aprovada e sancionada no ano passado, ficará a cargo de investigar, com acesso livre a documentos, casos de violação aos direitos humanos durante o período de 1946 a 1988.  Para sair do papel, a comissão precisa agora que seus integrantes sejam escolhidos pela presidenta Dilma Rousseff.
— Foi justamente por conta do processo que está se formando em torno da Comissão da Verdade que a gente decidiu fazer esse ato. Primeiro por conta de crimes pelos quais alguns militares são acusados e processados e que não são de conhecimento da população. Também queremos fazer com que a sociedade se posicione a esse respeito, por ser uma passagem sombria da nossa história e que precisa ser resgatado – ressaltou a estudante.
Para Lira Alli, estudante paulista, o importante do ato, conhecido como “escracho” e realizado originalmente na Argentina, é levantar questões do passado que não são discutidas e abordadas em sala de aula.
— A gente já vinha há algum tempo pensando em realizar ações deste tipo, inspirados, especialmente, no que a juventude de outros países da América Latina já vem fazendo, explicou Alli.
Jovens reuniram-se na manhã de segunda-feira em Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre para protestar contra torturadores que participaram de ações de repressão durante a ditadura no Brasil (1964-1985).
Em São Paulo, com a participação de 200 estudantes, o alvo dos protestos foi o delegado aposentado do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), David dos Santos Araujo, que hoje tem uma empresa de segurança privada. “Capitão Lisboa”, como era conhecido à época, é acusado, por uma ação civil pública do Ministério Público Federal, de envolvimento na tortura e morte de Joaquim Alencar de Seixas.
Levante da Juventude
Depois do ‘esculacho’ organizado pelo Levante Popular da Juventude no torturador da ditadura militar David dos Santos Araújo, o Capitão “Lisboa”, os nomes das empresas que se utilizam dos serviços da sua empresa de segurança privada, a Dacala, desapareceram do site da empresa.
Em São Paulo o ato aconteceu em frente à sede da empresa na Av. Vereador José Diniz, na zona sul. No Rio de Janeiro, um grupo do Levante fez um protesto na sede da filial da empresa.
O Blog oficial do Levante publicou uma lista de alguns dos clientes da Dacala:
-Anhanguera Educacional
-Banco Itaú
-Ford
-Jac Motors
-Banco Safra
-Volkswagen
-Banco Santander
-Audi Tech
-DHl
-CSU
-Exata Logística
-Fuji
-Galvão
-Gattaz
-Jaguar
-JWT
-Kia
O Levante da Juventude está animado e avalia que o sumiço das clientes da Dacala mostra a tortura ainda envergonha muitas pessoas e que a tentativa de apagar o passado, como querem os torturadores, será frustrada. “David dos Santos Araújo, o Capitão Lisboa, é torturador, assassino e responsável por abuso sexual, em Ação Civil Pública do Ministério Público Federal”, conclui o documento distribuído pelo grupo.

PUC-RJ começa a desenvolver protótipo de casa sustentável


Sustentabilidade
Uma casa totalmente sustentável é o protótipo que começou a ser construído no campus da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e deverá estar concluído em 15 dias.
O modelo de residência ecológica será exibido a cerca de 500 cientistas do mundo inteiro, no Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, entre os dias 10 e 15 de junho.          
Durante um ano, os pesquisadores e alunos de diversos departamentos da PUC-RJ vão avaliar se o projeto da casa sustentável é durável e pode ser reproduzido.
O encontro ocorrerá na PUC-RJ e é organizado pelo Conselho Internacional para a Ciência (Icsu) em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a Federação Mundial de Organizações de Engenharia (WFEO), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e com a Academia Brasileira de Ciências, entre outras instituições.
Idealizado pela Planeja & Informa e pela Casa Viva Eventos Ambientais, o projeto Casa Viva é desenvolvido em parceria com o Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente (Nima) e as faculdades de Arquitetura e Engenharia da PUC-RJ.
A casa, modelo de sustentabilidade, é a principal atração da mostra Casa Viva – Transforma Sua Casa num Pedacinho do Planeta, que a PUC-RJ promove entre os dias 26 e 28 de abril. Após esse evento, a casa será doada à universidade, que a transformará em um laboratório vivo, ou seja, um espaço permanente para pesquisa e desenvolvimento.
O coordenador da Área de Educação Ambiental do Nima, Roosevelt Fidélis de Souza, informou à Agência Brasil que a Casa Viva “é uma casa em que todo o material que entra nela, desde a técnica de construção até o produto final, é sustentável”.
A casa terá 70 metros quadrados de área construída e usará a tecnologiawood frame, baseada em estrutura de madeira proveniente de reflorestamento. “Todo o material que vai estar disponível na casa tem o selo verde”, destacou.
A casa terá luzes eficientes. Biodigestores instalados no banheiro transformarão o esgoto sanitário em energia. O gás resultante desse processo irá abastecer a pequena cozinha. A casa é formada de quatro módulos: sala, quarto, banheiro e cozinha. “O teto tem o telhado verde, com reaproveitamento da água da chuva.”
Durante um ano, os pesquisadores e alunos de diversos departamentos da PUC-RJ vão avaliar se o projeto é durável e pode ser reproduzido. “Vão fazer estudos e avaliações para realmente ver se a casa é sustentável ao longo do tempo”. Ao fim desse período, Roosevelt de Souza admitiu que o projeto poderá servir de base para outras construções em todo o país, obedecendo ao mesmo parâmetro.
Além de oferecer ao público a oportunidade de visitar uma casa sustentável, o evento que a PUC-RJ promoverá em abril incluirá debates sobre novas tecnologias que atendem aos padrões internacionais desustentabilidade e de qualidade.

Comissão no Senado aprova fim do 14º e 15º salários

Texto ainda precisa ser aprovado por outra comissão e pelo plenário



Os senadores da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) aprovaram, na manhã desta terça-feira (27), o projeto de Decreto Legislativo que acaba com os salários extras dos deputados e senadores, conhecidos como 14º e 15º salários. O projeto é da senadora e atual ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann
Aprovado na CAE, o projeto ainda precisa ser aprovado na Comissão da Mesa Diretora e pelo plenário do Senado antes de ter validade. As duas ajudas de custo são pagas anualmente aos parlamentares do Congresso Nacional, sempre no início e fim do ano.
 Em oito anos de mandato, o custo para o Senado é de R$ 34,6 milhões, e, em quatro anos de mandato, o custo para a Câmara dos Deputados é de R$ 109,6 milhões. No caso de Senado, os salário extras ainda são isentos de Imposto de Renda.
 O relator do projeto, senador Lindbergh Farias (PT-RJ), defendeu a aprovação do projeto e lembrou que os salários extras se justificavam quando o Senado ainda era no Rio de Janeiro e os senadores precisavam de "ajuda de custo" para voltar aos Estados.
 - Hoje temos que fazer essa adequação. Não temos como explicar ao trabalhador essa ajuda de custo que é confundida com 14º e 15º salários.
 A pressão para que os parlamentares acabem com o fim do salário extra é grande. Como fim do 14º e 15º no Congresso Nacional, outros Estados devem acabar extinguindo o benefício.

No Distrito Federal, a pressão fez com que os deputados distritais votassem pelo fim da ajuda de custo antes mesmo do Congresso aprová-la. 

Demóstenes deixa liderança do DEM no Senado após denúncias


BRASÍLIA, 27 Mar (Reuters) - O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) renunciou nesta terça-feira à liderança do Democratas no Senado. A decisão ocorre após denúncias, divulgadas na mídia, de que teria ligações com Carlos Augusto Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo, acusado de chefiar uma quadrilha de exploração de jogos ilegais.
Na curta carta de renúncia, Torres diz que quer "acompanhar a evolução dos fatos noticiados nos últimos dias" e, por isso, pede o "afastamento da liderança".
Mais cedo, Demóstenes conversou com o presidente do DEM, senador José Agripino (RN), e explicou mais longamente seus motivos para deixar o comando da bancada na Casa.
Antes da conversa, Agripino tinha dito a jornalistas que a saída da liderança só deveria ocorrer se houvesse uma denúncia formal da Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas admitiu que a situação incomodava a legenda.
"A situação do senador Demóstenes, por conta das dúvidas, é incômoda", disse Agripino.
O partido e Torres têm conversado com outros senadores para evitar a abertura de um processo no Conselho de Ética do Senado para analisar se há quebra de decoro parlamentar, o que poderia inclusive resultar na cassação do mandato de Torres.
O DEM reunirá sua bancada de cinco senadores nos próximos dias para indicar um novo líder no Senado, mas interinamente quem assume o comando da bancada é o vice-líder, senador Jayme Campos (DEM-MT).
Agripino disse à Reuters que o partido ainda não analisa a possibilidade de expulsar Torres por conta das denúncias veiculadas na mídia.
Segundo essas denúncias, nas interceptações feitas pela Polícia Federal, Torres teria pedido para Cachoeira pagar uma despesa dele com táxi-aéreo de 3 mil reais. E em outra gravação, o parlamentar do DEM teria revelado detalhes de reuniões reservadas que teve com autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Cachoeira está preso desde fevereiro.
O inquérito da Operação Monte Carlo chegou ao procurador-geral, Roberto Gurgel, em 2009 por ter envolvimento de pessoas com foro privilegiado, entre eles Torres. Desde então, segundo a assessoria da PGR, foram pedidas mais informações e Gurgel analisa se apresenta ou não denúncia ao Supremo.
Gurgel tem sido pressionado pelo Congresso a compartilhar as informações sobre o inquérito. Segundo sua assessoria, no entanto, ele não repassará as informações pedidas pelos parlamentares, porque apenas a Justiça pode determinar esse compartilhamento. Há temor no Congresso de que as investigações dessa Operação Monte Carlo atinjam um grande número de parlamentares.
Demóstenes Torres foi procurador da Justiça antes de se eleger para o Senado e é um dos parlamentares mais combativos da oposição. Em seu site oficial, logo ao lado do seu nome, há um selo com os dizeres "CPI da Corrupção, eu assinei".
(Por Jeferson Ribeiro; Edição de Maria Pia Palermo)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Comunistas chegam aos 90 anos com propostas semelhantes e estilos diferentes

Por Gilberto de Souza - do Rio de Janeiro

Ideologia não se compra. Ideologia não se vende”.
Eliseu Alves de Oliveiracomunista centenário, presente à festa do PCB, no Rio de Janeiro.
comunista
A bandeira do comunismo passa a tremular com mais vigor nos 90 anos de fundação do Partido
Há exatos 90 anos, um grupo de trabalhadores – eram 73 no país todo – fundava o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Era uma sexta-feira o dia 25 de março de 1922 quando, no início da tarde, encontraram-se o jornalista Astrojildo, o gráfico Pimenta, o contador Cordeiro, o sapateiro José Elias, os dois alfaiates, Cendon e Barbosa, o vassoureiro Luís Peres, o ferroviário Hermogênio “e ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois”, como o descreveu o poeta Ferreira Goulart. Estavam em Niterói para o ato que, neste domingo, foi homenageado por outro grupo de comunistas. Desta vez, porém, só uma parte deles compareceu. A outra foi dormir tarde, na véspera, por conta da festa promovida para 2 mil pessoas, na maior casa de shows do Rio de Janeiro. Ambos os grupos sabem, com clareza, que os ideais de Karl Marx e Friedrich Engels estão mais atuais do que nunca e precisam ser implementados no país, de uma vez por todas. Divididos em um cisma, desde a década de 60, as duas metades da foice e do martelo até hoje não se entenderam e os estilos de fazer política, certamente, não combinam mais.
comunista
Renato Rabelo é secretário-geral do Partido Comunista do Brasil
Na noite que antecedeu a chegada das nove décadas de existência do partido mais longevo na história republicana brasileira, o show de Martinho da Vila e um grupo de bambas no anfiteatro construído ao lado do Museu de Arte Moderna, no Parque do Flamengo, sucedeu o ato político ao qual compareceram as mais altas autoridades do país, com a presença virtual da presidenta Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em mensagens gravadas especialmente para o público que lotava as mesas e corredores em torno do palco, ao qual subiram os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência da República) e Aldo Rebelo (Esportes), o vice-governador do Estado, Luiz Fernando Pezão, o prefeito da cidade, Eduardo Paes, e demais convidados.
Dilma, em traje vermelho e sorriso pleno, derramou elogios sobre a atuação do partido que tem “sacudido velhas estruturas por um país soberano e com justiça social”. Em seguida, Lula estendeu seu abraço à militância e à direção partidária da legenda que o ajudou a superar os momentos mais difíceis de seus dois mandatos. Foram ovacionados. Intensidade semelhante de aplausos foi equivalente apenas ao discurso, de mais de mais de uma hora, do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo.
– Os comunistas atuam com o objetivo de, no governo que participamos, dar curso, com base na frente que o sustenta, de um Projeto Nacional com esse sentido. O PCdoB, mais ainda, está empenhado em dar a sua contribuição. Neste tempo presente é primordial distinguir nova oportunidade histórica e seguir caminho próprio, de mudança estrutural, não se limitando a remediar o impasse gerado pela grande crise do capitalismo – disse Rabelo.
Ainda segundo o líder comunista, “o desfecho dependerá da convicção e da vasta mobilização do povo de caminhar no rumo de um novo salto civilizatório na história da grande nação brasileira, que na concepção programática do PCdoB é a transição para uma sociedade superior – socialismo com a cara do Brasil”.
Rabelo lidera a militância que discordou, no passado, dos reformistas – aqueles que pregavam a “revolução democrática e nacional” e, por décadas, determinaram as alianças dos comunistas com setores da burguesia, tornando subalterno o papel do proletariado – e conclamaram a Reconstrução do PCB. Vanguardeados por quadros como Maurício Grabois, Pedro Pomar, João Amazonas, Calil Chade e outros, em 1962 é realizada a conferência de reconstrução, que resgata o nome histórico do partido e assume a sigla PCdoB para se diferenciar da legenda original, que permaneceria na busca de um entendimento com setores capitalistas da sociedade até a ruptura com o grupo que tentou extinguir, definitivamente, a legenda e formar o Partido Popular Socialista (PPS), hoje aliado à direita no país.
– O PCB fez parte de um momento de cisão do movimento comunista, que repercutiu no mundo e aqui no Brasil. Ele jogou seu papel naquele começo e o partido que era maior, que era o PCB, desapareceu. Transformou-se em PPS, um partido hoje atrelado aos tucanos. O que restou é um grupo pequeno, é mais uma seita política, não é um partido político. Não tem influência no curso político brasileiro. Na realidade, o PCB, esse que era maioria, definhou e desapareceu. Para o PCdoB, como nós dissemos aí, valeu a reorganização. (O PCdoB) foi o partido que enfrentou a ditadura, foi o partido que atraiu para as suas fileiras um conjunto de revolucionários sinceros – afirmou Rabelo.
Reconstrução Revolucionária
comunista
O Partido Comunista Brasileiro reuniu a militância no auditório da ABI
Líder do grupo que resistiu à criação do PPS e evitou a extinção do PCB, advogado, bancário e secretário-geral do PCB, Ivan Martins Pinheiro não foi à festa promovida na véspera pela legenda dissidente. Neste domingo, fez uma visita ao local onde o Partidão foi fundado e depois participou de uma sessão solene da Câmara Municipal de Niterói, para receber a homenagem do vereador Gezivaldo Ribeiro de Freitas, o Renatinho, do Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL). Concluia, assim, uma semana inteira de atividades que teve seu zênite no ato público promovido na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), sexta-feira à noite, no Centro do Rio. Tanto na sala de espetáculos do Aterro do Flamengo, com a lotação esgotada para mais de 2 mil pessoas, quanto no antigo auditório do prédio dos jornalistas, a atmosfera transbordava o ideário socialista. Mas estavam cristalizadas as diferenças no estilo de fazer política.
Na chegada à casa de shows alugada pela organização do PCdoB, a retreta recepcionava os convidados, vestidos para festa, aos acordes de clássicos marciais dos mais variados, indo desde umpout pourri de Raul Seixas à The Washington Post March, embora executada com parcimônia por um dos clarinetistas, que a considerava “yankee demais” para o evento. Na ABI, o sagão do 9º andar estava tomado por livros marxistas e a edição do Imprensa Popular, o jornal da Direção Nacional do PCB, era distribuída à vontade. Os convidados para o encontro, no lugar dos telões que, na sala de espetáculos trazia as mensagens da atual e do ex-presidente da República, em qualidade de cinema e surround sound, encontravam apenas um equipamento incipiente de vídeo que teimava algumas vezes em não seguir adiante na exibição mas, quando funcionava, era capaz de levar os quase mil partisans à beira das lágrimas, no depoimento de heróis da resistência à ditadura militar, durante o filme Fomos, somos e seremos comunistas.
A execução da Internacional Socialista, por Rildo Hora e sua cândida regência à platéia, durante o ato do PCdoB, comoveu igualmente o coração dos comunistas presentes à festa de sábado mas, na sexta-feira, a emoção veio mesmo da garganta daqueles que cantaram, à capela devido a um defeito no aparelho de som, o hino ao comunismo. Se uma garrafinha de água, na casa de shows, custava R$ 4, era de graça para os comunistas na ABI. Estes últimos também puderam saborear um cafezinho da casa, enquanto respiravam a odisséia de uma legenda que, embora dividida, aponta para o horizonte do socialismo no Brasil.
– Nós temos a vantagem de comemorar os 90 anos no momento em que o Partido readquire a sua vitalidade, após ter passado por um momento muito difícil na década de 90. Tenho que confessar que o Partido quase acabou nos anos 90, com o racha que houve na criação de um outro partido (o PPS) e a crise na União Soviética. Mas hoje estamos reconstruindo o PCB. Chamamos esse momento de Reconstrução Revolucionária. É importante dizer que não estamos propondo uma revolução armada. A expressão ‘revolucionária’, para nós, significa uma mudança profunda em âmbito econômico e social. Não acreditamos em maquiagens, em remendos no capitalismo. Propomos o rompimento com o sistema capitalista. É claro que não será obra nossa, mas de milhões de trabalhadores – afirmou o secretário-geral do PCB.
Janela de entendimento
Passadas nove décadas da fundação no Brasil e cinco de uma briga interna que abalou os alicerces do movimento comunista mundial, as condições para a união das esquerdas comunistas parece ter surgido em uma janela de tempo junto às forças progressistas, para o enfrentamento à direita brasileira. Longe, ainda, de qualquer aceno para uma negociação direta, tanto Rabelo, no PCdoB, quanto Ivan Pinheiro, no PCB, percebem que a Comissão da Verdade, instituída pela lei que visa passar a limpo a história da nação, enseja um esforço para que as vítimas da ditadura desvelem os seus algozes, abrigados nas castas abastecidas pelo capital internacional, com profundas raízes em grande parte da sociedade e ancorados no apoio da mídia conservadora que ignorou, solenemente, o aniversário de fundação do comunismo no Brasil.
– A Comissão da Verdade não é só um fator de aglutinação da esquerda, ela traz para nós, que cumprimos nosso papel, uma função importante, que é repor a história recente do Brasil, em um momento importante dessa história. A verdade é essencial para a história e para que a nação tenha orgulho de ser. Esconder a verdade significa ser uma nação frágil, sem futuro. Então, tem uma repercussão muito maior. Uma parte da sociedade, que hoje é uma minoria, pode ser contra vir à luz do dia a verdade. (Os militares aposentados, que assinaram um manifesto contra a Comissão da Verdade) fizeram o papel deles de interpretar a história, como sempre, pela ótica dominante. Procuraram esconder a verdade para as gerações futuras. Esse foi sempre o papel da classe dominante brasileira. Então, este é o papel dessa elite mais conservadora. O papel dela hoje, desesperadamente, é fazer o que fazia antes, quando tinha o poder na mão. É gente que está de pijama mesmo – disse Renato Rabelo.
A leitura do secretário-geral do PCdoB quanto ao momento histórico porque passa o Brasil e a necessidade de se trazer à tona os crimes cometidos por agentes da ditadura militar assemelha-se, em um corte longitudinal, ao discurso de Ivan Pinheiro. Para o comunista histórico, a verdade sobre os Anos de Chumbo poderá proporcionar o renascimento de “um caminho mais revolucionário e de mudanças profundas”. Segundo Pinheiro, em seu discurso de encerramento do ato político na ABI, o país somente evitará uma nova crise institucional no momento em que as forças de esquerda se unirem em torno da Comissão da Verdade, para que ela possa cumprir seu papel histórico.
Seja sob o brilho dos holofotes, na festa animada por artistas que simpatizam com o ideário comunista, seja no ambiente simples e austero da ABI, o comunismo chega às raias de seu primeiro século no Brasil com a perspectiva de um crescimento sem par na história republicana brasileira. “Há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito triunfar a mudança, que tem feito florescer a mudança. Caramba! A Primavera é inexorável”, conclui Pablo Neruda, no poema Os Comunistas, difundido nas publicações que encheram este domingo de festa, apesar das diferenças, tanto para o PCB quanto para o PCdoB.